Apagando a História

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De uma coisa eu sempre tive certeza: nunca apagaria a história do meu filho. Não mudaria seu nome, não esconderia sua história e não o encorajaria a sentir raiva de sua família de origem. Mas... Com o processo de adoção finalizado, tivemos que esperar o tempo do nosso filho para tirar um novo RG. Ele não entendia a alteração do seu sobrenome e sentia um desconforto enorme sobre isso. Não comemorou a nova certidão. Não quis ver o documento. Quando ele passou a compreender a modificação, lá fomos nós. Primeira tentativa — um ano após a nova certidão. Sem sucesso, porque o antigo CPF não havia sido cancelado e tivemos que solicitar ao fórum o cancelamento. Segunda tentativa — um ano após a primeira. O RG foi barrado, pois a Fazenda não estava permitindo a vinculação do documento ao novo CPF. Terceira tentativa: sucesso. Mas me deparei com uma situação que eu não esperava. O atendente me disse: “O RG dele ficará retido.” Confesso que me senti estranha. Como se eu estivesse negand...

O Amor Também Se Constrói: Reflexões de Uma Mãe por Adoção

O amor se constrói

Ser mulher já é, por si só, um universo de transformações. Quando essa mulher se torna mãe, seja pela gestação biológica ou pela adoção, ela é atravessada por sentimentos que muitas vezes não cabem em palavras. Hoje, quero falar especialmente com você, mulher que se tornou mãe e não sentiu aquele “amor mágico” que tanto dizem por aí. Eu entendo você.


Eu sou mãe por adoção. Esperei pelo meu filho por quatro anos e três meses. E durante essa longa espera, entre expectativas e incertezas, procurei ser realista. Nunca romantizei o processo e, no fundo, sabia que poderia não sentir amor de imediato pela criança que chegaria para fazer parte da minha vida.


E foi exatamente isso que aconteceu.


Quando vi meu filho pela primeira vez, não senti um arrebatamento. Não fui tomada por um amor instantâneo. O que senti foi medo. Uma aflição quase silenciosa. Me perguntei, com um nó na garganta, se eu daria conta. Se um dia eu o amaria de verdade.


Nos primeiros tempos da nossa convivência, meu filho — tão pequeno e já tão sábio — me perguntou algumas vezes se eu o amava. Eu respondia com toda a honestidade e cuidado que cabia naquele momento:

"Filho, o amor é uma construção. A gente vai aprendendo a se amar."


Essa frase passou a ser o pilar da nossa relação.


Hoje, o nosso vínculo segue sendo construído dia após dia. Não é um conto de fadas. Mas é real. É feito de afeto, de tropeços, de descobertas e superações. E, principalmente, de presença. Porque o amor, quando é verdadeiro, não precisa ser instantâneo. Ele pode — e muitas vezes precisa — ser aprendido.


Se você é mãe — por adoção ou não — e não sente esse amor que todos parecem sentir desde o primeiro instante, saiba: você não está sozinha. A maternidade não é uniforme. Não há um roteiro único, nem um cronômetro emocional. E tudo bem se o seu caminho for diferente.


Não tenha medo de buscar ajuda. Conversar com profissionais, com outras mães, com pessoas que possam acolher sem julgar, faz toda a diferença. O amor pode se revelar de formas inesperadas, mas ele é possível. Com apoio, com tempo e com entrega, uma linda relação pode nascer e florescer.


Eu não me vejo mais sem meu filho. Ele é parte do que sou. E a nossa história, feita de construção e coragem, é também uma declaração de que o amor pode — e deve — ser vivido de forma verdadeira, do jeitinho que cada mulher puder oferecer.


Com carinho,

Uma mãe real.

Uma mulher como você.


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