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Apagando a História

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De uma coisa eu sempre tive certeza: nunca apagaria a história do meu filho. Não mudaria seu nome, não esconderia sua história e não o encorajaria a sentir raiva de sua família de origem. Mas... Com o processo de adoção finalizado, tivemos que esperar o tempo do nosso filho para tirar um novo RG. Ele não entendia a alteração do seu sobrenome e sentia um desconforto enorme sobre isso. Não comemorou a nova certidão. Não quis ver o documento. Quando ele passou a compreender a modificação, lá fomos nós. Primeira tentativa — um ano após a nova certidão. Sem sucesso, porque o antigo CPF não havia sido cancelado e tivemos que solicitar ao fórum o cancelamento. Segunda tentativa — um ano após a primeira. O RG foi barrado, pois a Fazenda não estava permitindo a vinculação do documento ao novo CPF. Terceira tentativa: sucesso. Mas me deparei com uma situação que eu não esperava. O atendente me disse: “O RG dele ficará retido.” Confesso que me senti estranha. Como se eu estivesse negand...

E se fosse o meu filho ali?

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Ontem de manhã, enquanto tomava meu café em um quiosque de terminal de ônibus, um rapaz se aproximou de mim. Devia ter uns 22 anos, talvez menos. Jovem, com o olhar cansado e o corpo magro de quem carrega muito mais do que devia. Ele me pediu algo para comer. Comprei um bolo, ele agradeceu com simplicidade e se afastou. A cena durou poucos minutos, mas dentro de mim, durou o dia inteiro. Eu sempre fui uma pessoa atenta. Sempre observei o mundo com um olhar questionador, reflexivo. Mas depois que me tornei mãe, tudo passou a ter uma outra camada. Me tornei mais sensível. Mais aberta. Mais vulnerável, talvez. E ali, naquele terminal onde a vida corre sem pausa, fui tomada por uma pergunta que me paralisou por dentro: e se fosse o meu filho ali? Sou mãe por adoção. Uma escolha consciente e transformadora. E mesmo sabendo que não sou a salvadora de ninguém, essa experiência me deu novos olhos. Penso com frequência sobre o caminho que meu filho teria seguido se não tivesse sido acolhido. Qu...

Entre a liberdade e a proteção: maternar quem já andou sozinho demais

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Meu filho gosta de ser livre. Gosta de andar, correr, explorar o mundo com as próprias pernas. E, de certa forma, esse desejo de liberdade me emociona. Mas a liberdade que ele conheceu na infância não era saudável — era perigosa. Era o tipo de liberdade que expunha, machucava, deixava marcas. Como já compartilhei em outros textos, me tornei mãe por adoção. Meu filho chegou à nossa vida com quase oito anos de idade. Um menino curioso, esperto, cheio de energia... e carregando uma história dura demais para alguém tão pequeno. Soube, meses depois da chegada dele, que aos quatro anos recém completos, ele já havia sido acolhido. E, antes disso — ou entre esses momentos —, ele atravessava a cidade sozinho . Sim, sozinho. Um serzinho inocente, indefeso, caminhando entre carros, ruas movimentadas, esquinas desconhecidas... exposto a perigos que nenhuma criança deveria enfrentar. Essa informação me paralisou. Fiquei em choque. Porque, naquele instante, tudo fez ainda mais sentido: o gosto pe...