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Mostrando postagens de agosto, 2025

Apagando a História

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De uma coisa eu sempre tive certeza: nunca apagaria a história do meu filho. Não mudaria seu nome, não esconderia sua história e não o encorajaria a sentir raiva de sua família de origem. Mas... Com o processo de adoção finalizado, tivemos que esperar o tempo do nosso filho para tirar um novo RG. Ele não entendia a alteração do seu sobrenome e sentia um desconforto enorme sobre isso. Não comemorou a nova certidão. Não quis ver o documento. Quando ele passou a compreender a modificação, lá fomos nós. Primeira tentativa — um ano após a nova certidão. Sem sucesso, porque o antigo CPF não havia sido cancelado e tivemos que solicitar ao fórum o cancelamento. Segunda tentativa — um ano após a primeira. O RG foi barrado, pois a Fazenda não estava permitindo a vinculação do documento ao novo CPF. Terceira tentativa: sucesso. Mas me deparei com uma situação que eu não esperava. O atendente me disse: “O RG dele ficará retido.” Confesso que me senti estranha. Como se eu estivesse negand...

Quando ele me chamou de mãe

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Sou mãe de um menino de onze anos. Meu menino. Esperto, lindo e cheio de vida. Mas ele carrega nos ombros uma bagagem que não pertence a nenhuma criança. Uma bagagem que o tempo, a fome, a ausência e a solidão colocaram sobre ele. Ele sabe o que é sentir fome. Sabe o que é não ser cuidado. Sabe o que é andar sozinho por aí, indefeso, tendo apenas a si mesmo. Antes de chegar à minha vida pela adoção, ele viveu capítulos que eu daria tudo para reescrever. E talvez por isso, até hoje, tenha dificuldade de me chamar de “mãe”. Essa palavra parece morar numa prateleira alta demais, inalcançável para ele. Mas na madrugada de sábado para domingo, algo aconteceu. Ele estava com febre. Dormia inquieto, murmurando palavras que vinham de algum lugar entre sonho e delírio. Eu estava ali, ao lado dele, cuidando, sentindo sua respiração quente, atenta a cada movimento. E então… aconteceu. Ele me chamou de Mãe . Foi só uma vez. Baixinho. Quase como se fosse para si mesmo. E naquele instante, o ...

Quando é sempre a gente que cede: o peso invisível que carregamos em silêncio

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Mais uma vez, sou eu quem cede. Quem respira fundo, guarda pra si e tenta não desmoronar. Não porque gosto de evitar conversas, mas porque simplesmente não temos espaço pra isso. A rotina não permite. A casa está cheia de demandas, e mais uma vez deixamos o que é nosso de lado. Eu estou magoada. Estou chateada. E, sinceramente, cansada de sentir que me anulo todos os dias. Conheço todos os meus defeitos. Vivo tentando me podar, controlar o que digo, como digo, como ajo, pra não te deixar incomodado. Evito até contar tudo o que me acontece no dia a dia, porque sei que determinadas interações minhas te incomodam. O curioso é que, quando é você quem compartilha, eu escuto, acolho, não reajo com incômodo. Não me sinto no direito de te podar. E talvez seja isso o que mais me dói: a sensação de que só um lado está tentando não incomodar. Não estou feliz. Já falei antes e continuo dizendo. Você coopera, ajuda com a casa, com algumas coisas do cotidiano, mas isso é o básico. Porque eu não mor...