Apagando a História

Imagem
De uma coisa eu sempre tive certeza: nunca apagaria a história do meu filho. Não mudaria seu nome, não esconderia sua história e não o encorajaria a sentir raiva de sua família de origem. Mas... Com o processo de adoção finalizado, tivemos que esperar o tempo do nosso filho para tirar um novo RG. Ele não entendia a alteração do seu sobrenome e sentia um desconforto enorme sobre isso. Não comemorou a nova certidão. Não quis ver o documento. Quando ele passou a compreender a modificação, lá fomos nós. Primeira tentativa — um ano após a nova certidão. Sem sucesso, porque o antigo CPF não havia sido cancelado e tivemos que solicitar ao fórum o cancelamento. Segunda tentativa — um ano após a primeira. O RG foi barrado, pois a Fazenda não estava permitindo a vinculação do documento ao novo CPF. Terceira tentativa: sucesso. Mas me deparei com uma situação que eu não esperava. O atendente me disse: “O RG dele ficará retido.” Confesso que me senti estranha. Como se eu estivesse negand...

A mudança de sobrenome na adoção: como foi viver esse processo com meu filho

Sobrenome

A maternidade me encontrou através de um caminho especial: a adoção. Seguindo todos os trâmites legais, construímos juntos nossa convivência, nosso amor e nossa família. Um dos momentos mais simbólicos do processo de adoção é quando a criança recebe sua nova certidão de nascimento, já com o sobrenome da nova família. Parece um marco alegre — e para muitos é. Mas, para o meu filho, a realidade foi bem diferente.


A notícia da mudança de sobrenome

Quando comecei a explicar ao meu filho que, ao final do processo, ele teria seu sobrenome modificado, me deparei com algo que eu não esperava: confusão e medo.
Ele deixaria de ter o sobrenome da família de origem para carregar o meu e o do meu marido. Embora para nós isso significasse pertencimento e continuidade, para ele era como apagar parte de sua história.

Todas as vezes que eu tentava retomar o assunto e explicar a importância dessa mudança, ele se agitava, mudava de assunto e mostrava desconforto. A sua reação me fez perceber que, naquele momento, insistir poderia gerar ainda mais ansiedade e dor.


A importância do acolhimento psicológico

Com a proximidade da finalização do nosso processo de adoção, entendi que precisava de ajuda profissional. Pedi então o apoio da psicóloga que o acompanhava, para que, de uma forma sensível e respeitosa, ela pudesse trabalhar esse tema com ele.

A psicóloga conversou, acolheu seus sentimentos e, com muito cuidado, explicou o significado da mudança de sobrenome. Aos poucos, ele entendeu e aceitou a alteração. Mas, diferente do que muitos imaginam, o dia da nova certidão não foi um dia de festa.


Vivendo o luto pela família de origem

Meu filho não deu pulos de alegria. Ele não celebrou. Ele viveu o luto.
Na cabecinha dele, a mudança de sobrenome simbolizava um desligamento oficial daqueles que ele conhecia como família. Mesmo entendendo que agora fazia parte de outra história, havia um medo: será que isso dificultaria reencontrar seus irmãos no futuro?

A adoção é amor, mas também é perda. E respeitar o tempo e o sentimento da criança é essencial para que ela consiga construir sua nova história sem apagar suas raízes.


O que aprendi com essa experiência

Essa vivência me ensinou que, na adoção, cada criança é única e carrega sua própria história, suas dores e seus medos. O que pode ser motivo de comemoração para uns, pode ser motivo de tristeza e luto para outros.
Por isso, precisamos estar atentos, respeitar cada passo e, acima de tudo, acolher — sempre com amor e paciência.


Se você está passando por um processo de adoção ou conhece alguém que esteja, lembre-se: não existe manual perfeito. Existe o coração disposto a amar e a ouvir.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Como Controlar a Voz Embargada em Momentos Importantes

No Dia da Adoção, uma mãe com o coração cheio de amor (e medo)

Quando ele me chamou de mãe